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Não costumo ver filmes e depois ler os livros que lhes deram origem; o inverso é mais verdadeiro. Porém, ao ver “A Casa dos Espíritos”, de Isabel Allende, hoje na Saraiva, não resisti. Culpa do filme, que conta com atuações ímpares de Meryl Streep, Glenn Close e Jeremy Irons. Preciso confessar meu preconceito com a autora; lembro-me da coleção de exemplares dela que minha madrinha comprava no Círculo do Livro (ainda existe?), ao lado de inúmeros romances bobos e fracos, e acreditava que ela estava no mesmo nível desses anônimos dos quais nem recordo nomes. Entretanto, ao ver o filme, a saga de uma família chilena até o golpe de Salvador Allende, mudei de opinião. Claro que ainda não li o livro, mas acredito que um bom filme vem de uma história original muitíssimo bem elaborada. Elaborarei melhor minha posição após lê-lo.

Além de “A Casa dos Espíritos”, adquiri outro mimo. Trata-se de “Amor em Minúscula”, de Francesc Miralles. É uma história sobre um professor que no primeiro dia do ano ganha um companheiro inesperado: um gatinho tigrado. E vê sua vida florescer após isso. Não sei muito sobre o enredo ainda, mas ao ler ansiosa as primeiras páginas, pareceu-me bem escrito. Mas não vou me precipitar. Por hora, ficam as promessas de novas impressões literárias. :)

Maratona mágica

os sete hp e beedle, o bardo

os sete hp e beedle, o bardo

Enfim terminei o que havia proposto durante meu período de licença de saúde: ler na sequência a série Harry Potter, de JK Rowling. Antes que me condenem por ler livros de criança (adolescente), best seller que todos já conhecem a história, devo ressaltar que sou fã da saga do bruxinho da cicatriz.

Quaisquer que sejam as críticas, um fato é inegável. Rowling foi brilhante ao criar um mundo mágico personificado pelo personagem principal. Que pré-adolescente ou criança nunca se sentiu isolado, diferente, com aquele desejo de ser especial, longe do lugar-comum? É exatamente o que Harry obtém, na noite de seu aniversário, a certeza de que não é igual aos outros. A grande sacada da autora foi conseguir de forma ímpar misturar a fantasia de Hogwarts com questões universais como amor, amizade, família e lealdade.

Não vou resumir as tramas, acredito que o bom leitor já deve ter pelo menos lido algum exemplar de HP à vista. Confesso que foi a curiosidade que me levou à obra. A irmã caçula de uma amiga era fanática pela série, que recém chegara acredito que ao terceiro volume. Ciumenta, ela não emprestava para ninguém, só pude folheá-lo rapidamente. Resolvi então, numa livraria, ler algumas páginas. Achei interessante, mas deixei para lá.

Depois de algum tempo, comprei os três primeiros livros em promoção por impulso. Li o primeiro, em seguida o segundo, por fim, o terceiro. Fiquei encantada! Que grande ideia, que ótima trama! Ansiei pelos novos como as crianças e adolescentes. Vi os filmes notando as diferenças entre mídias. Admito, fiquei fã.

baú desejável

baú desejável

Porque HP, Rony e Hermione são personagens irresistíveis. Amigos leais, crianças que crescem, aprendem, aprontam, sofrem, brigam e fazem as pazes. E nesse meio tempo lutam contra a ameaça do Lord das Trevas. É fascinante descobrir os meadros de Hogwarts, as particularidades do mundo bruxo, os feitiços, as poções, as criaturas extraordinárias. Como não querer participar de um chá rodeado de criaturas estranhas e quitutes duvidosos na casa de Hagrid? Como não se encantar com o expresso que leva à escola ou desejar poder experimentar o Chapéu Seletor e descobrir, enfim, para qual casa se vai? O livro tem isso de bom, te leva à infância em questão de segundos. Invejo essa geração que pode crescer em companhia desses personagens.

Meus livros prediletos são, em ordem, HP e o Prisioneiro de Askaban, e HP e o Enigma do Príncipe. O primeiro, porque me causou enooorme surpresa: de repente, a reviravolta. Foi emocionante descobrir a verdade. O segundo porque é onde começamos a conhecer um pouco mais de Snape – ainda que só se descubra que o tal príncipe mestiço é ele no fim.

Mas há passagens interessantes em todos, claro. Gosto da cena de ciúmes de Rony, quando este descobre que o acompanhante de Hermione no baile não é ninguém menos que o astro do quadribol Viktor Krum; adoro as passagens sobre as aulas de feitiço, herbologia e transfiguração; os objetos mágicos; os quadros que se mexem; as listas de livros e material escolar; Bichento, Edwiges e outros animais mais raros… Realmente, um mundo bem construído em que Rowling valoriza todos os detalhes.

Mas não posso deixar de falar também de Os Contos de Beedle, o Bardo. Considero uma grande despedida dos personagens que acompanhamos por sete anos. Enriquecedora ainda com os comentários de Dumbledore sobre cada conto. É uma pequena obra para ler e reler, mais ainda que a série HP. Mas Beedle é assunto para um próximo post… Por hora, recomendo principalmente para adultos essa leitura. Quem sabe assim não podemos olhar o mundo por uma ótica mais mágica?

O Irã em quadrinhos

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Comecei a terceira leitura de “Persépolis” esta semana. E cada vez que releio os quadrinhos de Marjane Satrapi fico mais impressionada com sua riqueza. Minha ignorância era tanta sobre o Irã que nunca imaginei que antes da revolução de 1979 o país era um dos mais cultos e ocidentalizados do Oriente Médio.

Para quem ainda não teve o prazer de folhear as HQs de Persépolis, a história é uma autobiografia da autora/desenhista. Acompanhamos a pequena heroína a partir de seus 10 anos, bem na época da revolução islâmica de 1979. Educada em uma escola francesa laica, apesar da pouca idade, Marjane estranha as mudanças. De repente, as meninas deviam usar véu e foram separadas dos meninos de sua turma. Isso foi só o início de uma época de retrocesso cultural, educacional e político no Irã. Retrocesso ilustrado com maestria e bastante seriedade aos olhos de uma criança.

De família liberal, Marjane mostra-se bastante politizada e cresce sabendo em que realmente acreditar. É fascinante pensar que, enquanto minha preocupações nesta idade eram os penteados da minha Barbie, uma menina lá no Oriente Médio conhecia a história de bravura de sua família e chocava-se com a intolerância de seu mundo. Assim ela cresce, brincando de ser Che Guevara e sempre respondendo com autenticidade às autoridades islâmicas – qualidade que mantem depois de adulta e que lhe trouxe tanto problemas quanto reconhecimento.

O grande baque da vida de Marjane é aos 14 anos, quando seus pais decidem enviá-la para em exílio para Áustria e fugir da guerra entre Irã e Iraque. Lá, ele se perde em drogas, apaixona-se e decepciona-se, questiona sua identidade e tenta resgatar seus laços familiares. Não vou contar tudo para não perder a graça da descoberta deses quadrinhos, mas o retorno ao Irã, aos 18, a impressiona. Mas é de volta à sua terra natal – agora Teerã é uma cidade de mártires, os nomes dos mortos são ostentados em cartazes e ruas da cidade – que ela entra em uma nova fase de sua vida: a aceitação do regime xiita. Aceitação em termos, Marjane é e sempre será uma revolucionária, um espírito livro e moderno em uma cultura oprimida pelo terror e fanatismo.

A obra se divide em quatro volumes, mas preferi comprar a edição completa (estava em promoção e assim poderia concluir toda a história). O filme baseado nos quadrinhos recebeu indicação ao Oscar de Melhor Animação. Ainda não assisti, mas pelo teor das HQs, acredito na qualidade do longa. Aliás, um detalhe tanto da história quanto da película: os desenhos são todos em preto-e-branco, dramáticos, com traço simples, valorizando seu o melhor – um enredo simplesmente incrível.

Era uma vez um gatinho…

Em uma manhã de segunda-feira, após uma das noites mais frias do inverno de 1988 na cidade de Spencer, no Estado de Iowa, EUA, a bibliotecária Vicki Myron chegava para mais um dia comum de trabalho. O que ela não imaginava, entretanto, era o quanto sua vida iria mudar a partir de então. Ao recolher os livros deixados durante o fim de semana na caixa de coleta da Biblioteca Pública, ela encontrou uma surpresa: em um cantinho entre os exemplares de devolução, estava um pequeno gatinho de cerca de 2 meses, abandonado à sua própria sorte.

Sorte, aliás, que seguiria sempre com o filhote ruivo. Adotado por Vicki e por todos os funcionário da biblioteca, ele foi batizado de Dewey Readmore Books (Dewey leia mais livros, na tradução) e acabou tornando-se atração local, mudando a rotina da pequena cidade e de seus habitantes. Mais ainda: em uma época em que a internet era um sonho distante, Dewey alcançou fama mundial, e sua história emocionou crianças e adultos dos mais diversos lugares – que muitas vezes viajavam grandes distâncias para somente conhecê-lo.

Essa é a cativante história real de “Dewey – Um Gato Entre Livros”. Narrativas sobre animais de estimação sempre têm apaixonados de plantão para devorá-las com lágrimas nos olhos. Mas o diferencial da história de Dewey é a mudança provocada pelo novo morador da Biblioteca Pública de Spencer em toda uma cidade. Encantador, o pequeno gato peludo cor de laranja parecia saber exatamente, entre os frequentadores do local, aqueles que precisavam de mais atenção e conforto. Incrivelmente sociável para um gato (sou dona de 4, conheço a atitude blasé natural dos felinos), Dewey virou a razão de muitos para visitarem a biblioteca – almejando por seus carinhos ou apenas para poder observá-lo dormir sobre os livros, passear de  carrinho entre as estantes ou fazer gracinhas felinas típicas.

O sucesso inesperado do gato, primeiro nos Estados Unidos e depois pelo mundo – a imprensa japonesa esteve no local para filmar o felino -, reflete-se até hoje: Dewey tem um link especial no site da Biblioteca Pública de Spencer, além de sua própria página no Facebook e no Flickr.

É uma leitura leve, rápida e fácil. Uma história para os amantes de livros e, principalmente, de gatos. Boa pedida quando se quer um pouco de distração literária.

há livros que merecem ser lidos, relidos, trelidos por n razões, tantas que precisaria de outro post para explicá-las. Esse é o caso de A História Sem Fim, de Michael Ende. A beleza e o encanto dessa narrativa vão além do seu público infanto-juvenil. Mostram a busca pelos sonhos e o amadurecimento através da dor, da perda e das escolhas, que nem sempre são boas, mas são o que são.

Talvez o pessoal da minha geração (nascidos na década de 70) se lembre do filme homônimo que narrava as aventuras de Bastian Baltasar Bux, Atreiú e seu fiel dragão da sorte Fuchur. Eu sei que vi, mas honestamente não lembro. O que é até melhor, pois como costumo preferir os livros aos filmes, senti-me sempre livre em imaginar os personagens como desejasse.

Mas voltemos à história: Bastian é um menino gordo, frágil que costuma ser hostilizado por colegas e professores, pratíca comumente chamada de bullying. Um dia, ao fugir de uns garotos de sua classe, ele entra numa livraria. Lá acaba roubando um livro de capa cor de cobre com duas serpentes enroladas, mordendo a cauda uma da outra. Esse livro se chama A História Sem Fim e, para poder lê-lo sossegadamente, Bastian vai até sua escola e se esconde no porão. Ali, acompanhando como leitor as aventuras do jovem Atreiú em busca da cura para a doença da Imperatriz Criança, o menino descobre que sua vida está intimamente ligada à do reino encantado chamado Fantasia.

Não quero estragar a surpresa de quem ainda não leu, por isso não vou resumir muito a história. Basta falar que nessa aventura Bastian vai do bem ao mal conforme sua vontade. E aprende que é preciso desejar com o coração para descobrir seu caminho (muitas vezes tortuoso). uma das passagens quem mais gosto da obra é sobre a Cidade dos Antigos Imperadores, que mais lembra uma espécie de sanatório para seres humanos sem lembranças, para aqueles que não conseguiram retornar para o mundo dos homens.

O livro tem algumas particulares. É todo escrito em duas cores – cobre para a realidade de Bastian e verde para a narrativa de Fantasia. São 26 capítulos e cada um começa com a letra seguindo a ordem do alfabeto. Seres mágicos, de boa ou má indole, recheiam a narrativa, que tem a capacidade envolver o leitor sem que ele perceba. Quando tu vês, estás totalmente mergulhado nesse mundo fantástido de Ende. Quem nunca imaginou uma terra com fadas gnomos e todos os seres que povoaram a infância?

Outra característica marcante é a presença de várias histórias dentro de histórias, que sempre dão margem à imaginação. Eu já ficava imaginando o destino de cada personagem que passava pela história principal, o que teria acontecido, como foi etc. É um exercício de criatividade tentar mergulhar no espírito de Fantasia.

Mas não pensem que é um livro light. Ele fala sobre alguns conceitos importantes como vida, morte, amor, orgulho – dualidades em geral. A própria figura da Imperatriz Criança é ambígua por aceitar todos os seres como eles são, sem fazer quaisquer distinções. Para mim ela representa o equilíbrio intocável de Fantasia.

Aqueles que lêem razoavelmente rápido como eu chegam facilmente ao final das quase 400 páginas em poucos dias. Na linha das obras impecáveis de Tolkien, A História Sem Fim é um clássico que merece ser tratado como tal. Uma boa leitura para jovens e adultos, como um break dessa vida maluca e real que vivemos no cotidiano. E é também um convite irresistível: é impossível não ficar instigado com um livro cuja única descrição em sua orelha é:

“Fantasia é a história sem fim escrita num livro de capa cor-de-cobre que estava no sótão de um colégio. Agora, ele está na sua mão.”

admirável mundo novo?

um dos pontos mais interessantes em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley,  é a revolução social produzida pela tecnologia. O desenvolvimento das ciências, especialmente a biologia, caminha para o resultado final: seres humanos geneticamente manipulados, programados e prontos para ser exatamente aquilo que seus criadores propuseram que eles fossem. Dessa forma, temos seres Y, Alfa e Beta, cada um nomeado a partir do papel que terá na sociedade de Huxley. Sem questionamentos, sem dúvidas, vidas prontas para serem felizes – uma felicidade absolutamente vazia de sentido, é verdade – nesse mundo perfeito e asséptico. choca, mas ao mesmo tempo, absurdamente possível.
outra questão válida é a total censura às artes em geral. o conhecimento literário, teorias revolucionárias, todo o aprendizado humano em séculos de história e cultura é expressamente proibido. os seres do mundo novo não têm idéia de quem foi Shakespeare, Da Vinci ou qualquer outro artista. Isso por que a melhor forma de controlar essas massas foi criando-as com uma ausência de emoções. Há instintos (sexo, fome etc) mas não pode-se envolver emocionalmente com alguém. E a arte é um estímulo para os sentimentos devendo, dessa maneira, ser totalmente obliterada.
a figura do selvagem surge na história como um contraponto chocado e deslocado nesse mundo admirável. ele é o olhar humanizado em uma sociedade oca, manipulada e suprimida de emoções. são suas reflexões sobre esse “futuro presente” que legitimam a genialidade de Huxley. é, sem dúvida, uma obra ótima para reflexões. e infindáveis saraus literários em botecos da Cidade Baixa.

…a civilização não tem absolutamente necessidade de nobreza nem de heroísmo. Essas coisas são sintomas de ineficiência política. Numa sociedade adequadamente organizada como a nossa, ninguém tem oportunidade de ser nobre ou heróico. É preciso que as condições se tornem essencialmente instáveis antes de que se apresente tal oportunidade. Onde há guerras, vassalagem, tentações às quais resistir, objetos de amor a serem conquistados ou defendidos – aí, é óbvio, a nobreza e o heroísmo fazem sentido. Mas hoje em dia não há guerra. Toma-se o maior cuidado para impedir as peossas de amarem demasiado quem quer que seja. Não há vassalagem, as pessoas são de tal modo condicionadas que não podem deixar de fazer o que devem fazer. E seu dever é no conjunto tão agradável, seus impulsos naturais podem ser satisfeitos tão livremente, que não há tentações a que resistir. E se acontcer, por algum mau acaso, algo desagradável, então há sempre o soma para ajudá-lo a fugir dos fatos. E sempre há soma para acalmar uma ira, para reconciliá-lo com os inimigos, para o tornar paciente e tolerante…”

comprinhas

mais duas aquisições para minha humilde biblioteca: A Sangue Frio, de Truman Capote (que já li mas não tinha ainda) e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Ambos na Traça. Em breve, posts sobre eles aqui! :)