há livros que merecem ser lidos, relidos, trelidos por n razões, tantas que precisaria de outro post para explicá-las. Esse é o caso de A História Sem Fim, de Michael Ende. A beleza e o encanto dessa narrativa vão além do seu público infanto-juvenil. Mostram a busca pelos sonhos e o amadurecimento através da dor, da perda e das escolhas, que nem sempre são boas, mas são o que são.
Talvez o pessoal da minha geração (nascidos na década de 70) se lembre do filme homônimo que narrava as aventuras de Bastian Baltasar Bux, Atreiú e seu fiel dragão da sorte Fuchur. Eu sei que vi, mas honestamente não lembro. O que é até melhor, pois como costumo preferir os livros aos filmes, senti-me sempre livre em imaginar os personagens como desejasse.
Mas voltemos à história: Bastian é um menino gordo, frágil que costuma ser hostilizado por colegas e professores, pratíca comumente chamada de bullying. Um dia, ao fugir de uns garotos de sua classe, ele entra numa livraria. Lá acaba roubando um livro de capa cor de cobre com duas serpentes enroladas, mordendo a cauda uma da outra. Esse livro se chama A História Sem Fim e, para poder lê-lo sossegadamente, Bastian vai até sua escola e se esconde no porão. Ali, acompanhando como leitor as aventuras do jovem Atreiú em busca da cura para a doença da Imperatriz Criança, o menino descobre que sua vida está intimamente ligada à do reino encantado chamado Fantasia.
Não quero estragar a surpresa de quem ainda não leu, por isso não vou resumir muito a história. Basta falar que nessa aventura Bastian vai do bem ao mal conforme sua vontade. E aprende que é preciso desejar com o coração para descobrir seu caminho (muitas vezes tortuoso). uma das passagens quem mais gosto da obra é sobre a Cidade dos Antigos Imperadores, que mais lembra uma espécie de sanatório para seres humanos sem lembranças, para aqueles que não conseguiram retornar para o mundo dos homens.
O livro tem algumas particulares. É todo escrito em duas cores - cobre para a realidade de Bastian e verde para a narrativa de Fantasia. São 26 capítulos e cada um começa com a letra seguindo a ordem do alfabeto. Seres mágicos, de boa ou má indole, recheiam a narrativa, que tem a capacidade envolver o leitor sem que ele perceba. Quando tu vês, estás totalmente mergulhado nesse mundo fantástido de Ende. Quem nunca imaginou uma terra com fadas gnomos e todos os seres que povoaram a infância?
Outra característica marcante é a presença de várias histórias dentro de histórias, que sempre dão margem à imaginação. Eu já ficava imaginando o destino de cada personagem que passava pela história principal, o que teria acontecido, como foi etc. É um exercício de criatividade tentar mergulhar no espírito de Fantasia.
Mas não pensem que é um livro light. Ele fala sobre alguns conceitos importantes como vida, morte, amor, orgulho - dualidades em geral. A própria figura da Imperatriz Criança é ambígua por aceitar todos os seres como eles são, sem fazer quaisquer distinções. Para mim ela representa o equilíbrio intocável de Fantasia.
Aqueles que lêem razoavelmente rápido como eu chegam facilmente ao final das quase 400 páginas em poucos dias. Na linha das obras impecáveis de Tolkien, A História Sem Fim é um clássico que merece ser tratado como tal. Uma boa leitura para jovens e adultos, como um break dessa vida maluca e real que vivemos no cotidiano. E é também um convite irresistível: é impossível não ficar instigado com um livro cuja única descrição em sua orelha é:
“Fantasia é a história sem fim escrita num livro de capa cor-de-cobre que estava no sótão de um colégio. Agora, ele está na sua mão.”