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há livros que merecem ser lidos, relidos, trelidos por n razões, tantas que precisaria de outro post para explicá-las. Esse é o caso de A História Sem Fim, de Michael Ende. A beleza e o encanto dessa narrativa vão além do seu público infanto-juvenil. Mostram a busca pelos sonhos e o amadurecimento através da dor, da perda e das escolhas, que nem sempre são boas, mas são o que são.

Talvez o pessoal da minha geração (nascidos na década de 70) se lembre do filme homônimo que narrava as aventuras de Bastian Baltasar Bux, Atreiú e seu fiel dragão da sorte Fuchur. Eu sei que vi, mas honestamente não lembro. O que é até melhor, pois como costumo preferir os livros aos filmes, senti-me sempre livre em imaginar os personagens como desejasse.

Mas voltemos à história: Bastian é um menino gordo, frágil que costuma ser hostilizado por colegas e professores, pratíca comumente chamada de bullying. Um dia, ao fugir de uns garotos de sua classe, ele entra numa livraria. Lá acaba roubando um livro de capa cor de cobre com duas serpentes enroladas, mordendo a cauda uma da outra. Esse livro se chama A História Sem Fim e, para poder lê-lo sossegadamente, Bastian vai até sua escola e se esconde no porão. Ali, acompanhando como leitor as aventuras do jovem Atreiú em busca da cura para a doença da Imperatriz Criança, o menino descobre que sua vida está intimamente ligada à do reino encantado chamado Fantasia.

Não quero estragar a surpresa de quem ainda não leu, por isso não vou resumir muito a história. Basta falar que nessa aventura Bastian vai do bem ao mal conforme sua vontade. E aprende que é preciso desejar com o coração para descobrir seu caminho (muitas vezes tortuoso). uma das passagens quem mais gosto da obra é sobre a Cidade dos Antigos Imperadores, que mais lembra uma espécie de sanatório para seres humanos sem lembranças, para aqueles que não conseguiram retornar para o mundo dos homens.

O livro tem algumas particulares. É todo escrito em duas cores - cobre para a realidade de Bastian e verde para a narrativa de Fantasia. São 26 capítulos e cada um começa com a letra seguindo a ordem do alfabeto. Seres mágicos, de boa ou má indole, recheiam a narrativa, que tem a capacidade envolver o leitor sem que ele perceba. Quando tu vês, estás totalmente mergulhado nesse mundo fantástido de Ende. Quem nunca imaginou uma terra com fadas gnomos e todos os seres que povoaram a infância?

Outra característica marcante é a presença de várias histórias dentro de histórias, que sempre dão margem à imaginação. Eu já ficava imaginando o destino de cada personagem que passava pela história principal, o que teria acontecido, como foi etc. É um exercício de criatividade tentar mergulhar no espírito de Fantasia.

Mas não pensem que é um livro light. Ele fala sobre alguns conceitos importantes como vida, morte, amor, orgulho - dualidades em geral. A própria figura da Imperatriz Criança é ambígua por aceitar todos os seres como eles são, sem fazer quaisquer distinções. Para mim ela representa o equilíbrio intocável de Fantasia.

Aqueles que lêem razoavelmente rápido como eu chegam facilmente ao final das quase 400 páginas em poucos dias. Na linha das obras impecáveis de Tolkien, A História Sem Fim é um clássico que merece ser tratado como tal. Uma boa leitura para jovens e adultos, como um break dessa vida maluca e real que vivemos no cotidiano. E é também um convite irresistível: é impossível não ficar instigado com um livro cuja única descrição em sua orelha é:

“Fantasia é a história sem fim escrita num livro de capa cor-de-cobre que estava no sótão de um colégio. Agora, ele está na sua mão.”

admirável mundo novo?

um dos pontos mais interessantes em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley,  é a revolução social produzida pela tecnologia. O desenvolvimento das ciências, especialmente a biologia, caminha para o resultado final: seres humanos geneticamente manipulados, programados e prontos para ser exatamente aquilo que seus criadores propuseram que eles fossem. Dessa forma, temos seres Y, Alfa e Beta, cada um nomeado a partir do papel que terá na sociedade de Huxley. Sem questionamentos, sem dúvidas, vidas prontas para serem felizes - uma felicidade absolutamente vazia de sentido, é verdade - nesse mundo perfeito e asséptico. choca, mas ao mesmo tempo, absurdamente possível.
outra questão válida é a total censura às artes em geral. o conhecimento literário, teorias revolucionárias, todo o aprendizado humano em séculos de história e cultura é expressamente proibido. os seres do mundo novo não têm idéia de quem foi Shakespeare, Da Vinci ou qualquer outro artista. Isso por que a melhor forma de controlar essas massas foi criando-as com uma ausência de emoções. Há instintos (sexo, fome etc) mas não pode-se envolver emocionalmente com alguém. E a arte é um estímulo para os sentimentos devendo, dessa maneira, ser totalmente obliterada.
a figura do selvagem surge na história como um contraponto chocado e deslocado nesse mundo admirável. ele é o olhar humanizado em uma sociedade oca, manipulada e suprimida de emoções. são suas reflexões sobre esse “futuro presente” que legitimam a genialidade de Huxley. é, sem dúvida, uma obra ótima para reflexões. e infindáveis saraus literários em botecos da Cidade Baixa.

…a civilização não tem absolutamente necessidade de nobreza nem de heroísmo. Essas coisas são sintomas de ineficiência política. Numa sociedade adequadamente organizada como a nossa, ninguém tem oportunidade de ser nobre ou heróico. É preciso que as condições se tornem essencialmente instáveis antes de que se apresente tal oportunidade. Onde há guerras, vassalagem, tentações às quais resistir, objetos de amor a serem conquistados ou defendidos - aí, é óbvio, a nobreza e o heroísmo fazem sentido. Mas hoje em dia não há guerra. Toma-se o maior cuidado para impedir as peossas de amarem demasiado quem quer que seja. Não há vassalagem, as pessoas são de tal modo condicionadas que não podem deixar de fazer o que devem fazer. E seu dever é no conjunto tão agradável, seus impulsos naturais podem ser satisfeitos tão livremente, que não há tentações a que resistir. E se acontcer, por algum mau acaso, algo desagradável, então há sempre o soma para ajudá-lo a fugir dos fatos. E sempre há soma para acalmar uma ira, para reconciliá-lo com os inimigos, para o tornar paciente e tolerante…”

comprinhas

mais duas aquisições para minha humilde biblioteca: A Sangue Frio, de Truman Capote (que já li mas não tinha ainda) e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Ambos na Traça. Em breve, posts sobre eles aqui! :)

enquanto voltava pela estrada num fim de tarde chuvoso até Porto Alegre, terminei de ler O Homem Duplicado, de José Saramago. A leitura, que em princípio parecia lenta e enrolada, surpreendeu-me: a ação presente na segunda metade do livro fez com que o devorasse em bem menos das cansativas 4h30min de viagem.

não, não se trata de um livro ímpar como Ensaio sobre a Cegueira. Mas é excelente e conseguiu com que eu não desgrudasse dele desde o momento em que li a primeira página. No entanto, ao contrário de Ensaio…, O Homem Duplicado pareceu-me uma excelente história para virar roteiro de cinema. Sim, acredito que muitos já saibam, mas não custa repetir aos mais distraídos: o brasileiro Fernando Meirelles está filmando Blindess, filme baseado em Ensaio. Com o aval do próprio autor. não gostei de saber disso; o livro é completo por si só e qualquer tentativa de cinematografá-lo parece fadada ao fracasso - ou no máximo, a um comentário do tipo “ficou bonzinho, mas não está à altura da obra original”.

Aos curiosos e interessados, o Meirelles dispõe de um blog bastante interessante sobre o to do de Blindness. O legal foi que ele pensou em um casal em particular como dois orientais. na minha imaginação de leitora, além de eles parecerem mais velhos, definitivamente não tinham os olhos de risquinhos que gosto tanto.

Bem, voltemos a O Homem Duplicado, que conta a história de um comum professor de História chamado Tertuliano Máximo Afonso. Divorciado e sem muitas distrações, ele aceita num dia a sugestão de um colega - que aqui só é conhecido como o professor de Matemática do colégio onde Tertuliano trabalha - de assistir a um filme comum, uma comediazinha que rende-lhe poucas risadas. Porém, um ator de segunda impressiona Tertuliano: é simplesmente sua cópia fiel. Mesmos trejeitos, voz, aparência, tudo em um é igual a outro, como gêmeos siameses. A partir daí, o professor de história fica obcecado e resolve descubrir a identidade de seu duplicado. Nessa saga até o encontro final dos dois iguais, muita água passa sob a ponte. Conforme a busca pelo ator segue, a tensão cresce - até chegar a um ponto onde parece que tudo se acalma. Ledo engado, pois é aí que a história fica de fato instigante. Não pretendo contar muito para não estragar a surpresa para futuros leitores, mas o final lembrou a categoria dos melhores contos e histórias de suspense e terror. Um certo quê de Stephen King, mas com muito mais profundidade e questionamento, com certeza. Eis das várias passagens interessantes da obra:

“Desprenderam-se devagar, ela sorriu um pouco, ele sorriu um pouco, mas nós sabemos que Tertuliano Máximo Afonso tem uma outra ideia na cabeça, que é retirar das vistas de Maria da Paz, o mais depressa possível, os papéis reveladores, por isso não se estranha que quase a tenha empurrado para a cozinha, Vai, vai fazer o café enquanto eu dou uma arrumação a este caos, e então aconteceu o inaudito, como se não desse importância às palavras que lhe saíam da boca ou como se não as entendesse completamente, ela murmurou, O caos é uma ordem por decifrar, Quê, que foi que disseste, perguntou Tertuliano Máximo Afonso, que já tinha a lista dos nomes a salvo, Que o caos é uma ordem por decifrar, Onde foi que leste isso, a quem o ouviste, Ocorreu-me neste momento, não creio que o tivesse lido alguma vez, e, ouvi-lo a alguém, isso tenho a certeza que não, Mas como foi que te saiu uma frase dessas, Que tem de especial a frase, Tem muito, Não sei, talvez fosse porque o meu trabalho no banco se faz com algarismos, e os algarismos, quando se apresentam misturados, confundidos, podem aparecer como elementos caóticos a quem não os conheça, no entanto existe neles, latente, uma ordem, na verdade creio que os algarismos não têm sentido fora de uma qualquer ordem que lhes dê, o problema está em saber encontrá-la, Aqui não há algarismos, Mas há um caos, foste tu mesmo que disseste…”

Realmente gostei de O Homem Duplicado. Não é, com certeza, a obra-prima de Saramago, mas tem o mérito de utilizar uma situação insólita, levando-a a níveis extremos de esquizofrenia e dúvida. Merece destaque na minha biblioteca como uma obra a ser relida, reavaliada e recomendada aos amantes da boa literatura. Só falta-me agora comprá-lo, pois o que li era emprestado de um colega do jornal.

anne, viktor e a guerra

O livro veio de presente, numa caixa daquelas de encomendas dos Correios, endereçada a mim no jornal. A supresa foi um exemplar (deliciosamente vindo de sebo da Borges) do livro “O Diário de Anne Frank“. A sinopse acho que todo já estudou a Segunda Guerra Mundial conhece: Anne era uma menina judia de 13 anos, que tinha uma vida despreocupada e feliz em Amsterdã, capital da Holanda. Porém, a vida dela muda à medida em que a força de Hitler cresce, e ela e a família (e mais outra família, os Van Daan) são obrigados a se esconder. É lá que a menina narra suas angustias, dúvidas, brigas e inquietações, de uma maneira às vezes infantil, outras de uma clareza maior do que qualquer adulto.

não foi a primeira vez que tive contato com esse livro. Quando tinha uns 14 anos, havi a na casa de uma grande amiga (na verdade, minha melhor amiga na época da adolescência) um exemplar do livro - justamente da mesma edição que 14 anos depois fui ganhar de surpesa. Coincidência? Talvez. Mas o fato é que naquela época comecei a lê-lo. E sabe-se lá por que não acabei a leitura. Quem sabe não estava pronta para isso, ou faltou uma oportunidade. Nem entendo por que não pedi o livro emprestado - tinha achado interessante. Deve ter sido um daqueles arroubos de adolescência e minhas atenções podem ter se focado em outros livros e momentos.

O fato é que, em poucos dias, fui cúmplice de Anne e todas as suas doces bobices e alegrias. Fui sua companheira durante suas dúvidas, tristezas, seus momentos depressivos e sua precoce maturidade, atingida devido à dureza da guerra. Ri de alguns comentários típicos de adolescente (como somos bobos e fazemos dramas nessa idade!), mas as lágrimas só saíram no epílogo, quando realmente o final trágico- e conhecido - se cumpre. Assim como se cumpriu com muitas vítimas de uma guerra absurda e sem sentido.

há outro livro sobre relatos da Segunda Guerra que li, esse na faculdade, por conta de um fantástico e cativante professor de Filosofia chamado Luciano. O livro em questão é “Em Busca de Sentido“, de Viktor Frankl. Foi uma das aulas mais lindas que tive na Pucrs, inesquecível. Esse é um relato dos campos de concentração, de um psiquiatra que sobreviveu ao terror. Uma realidade que Anne também viveu, mas não teve oportunidade de sobreviver para relatar à sua amiga imaginária Kitty (a quem ela se dirige no diário).

dos Frank, somente o pai de Anne, Otto, sobreviveu. Dizem que o diário da jovem judia é uma fraude. há várias páginas na internet que levam a essas suposições. não sei se foi um relato verdadeiro ou não. e isso nem me interessa. o importante é o significado que esse livro teve (e tem) para todas as vítimas do nazismo.

definitivamente. foi o primeiro livro do Zygmunt Bauman que li e me aterrorizou horrivelmente. Por quê? Simples. Tudo ali é exatamente como o mundo, as pessoas, o consumo, a vida está. Ele teorizou algo que no íntimo eu tinha percebido mas ainda não tinha racionalizado. Não totalmente - eram pensamentos que mais pareciam espasmos e observações do tipo “isso está errado” e “não deveria ser assim”. Uma sensação incômoda, como se eu não sentisse pertencer ao mundo, à vida em que vivo. Parece bizarro? Talvez. Mas se isso te faz sentido, é hora de ler Amor Líquido.

Esse livro mexeu muito comigo. Porque fala de amor. De um amor além do de um casal. Ele te leva até à xenofobia e ao combate a imigração de muitos países europeus. Incrível como o amor (ou melhor, a falta de) pode causar tanto estrago. Pessoas descartáveis como um lenço de papel. Você só me serve enquanto me proporcionar prazer em todos os sentidos. Mesmo assim, não me apego, pois há tantas possibilidades por aí a espera de uma chance de fornecer-me outros & novos & descartáveis prazeres e sensações. Não faz sentido ficar preso, ligado somente a uma relação/pessoa.

Não me apego o c.! Esse tipo de liquidez não serve para mim. E acredito que para ninguém, pois não conheço quem goste de se sentir usado. Tá, não posso falar pela maioria, parto do meu próprio e humilde umbigo. Mas acredito que há muita gente que concorde comigo. Até porque tenho visto tantas pessoas próximas totalmente desapontadas com o amor. Desistem. Ou melhor, ficam numa espécie de standy by, esperando que talvez a sorte e/ou o acaso e/ou o destino tragam alguém que acabe com esse estado de inércia. O problema é que parece que o amor líquido vai totalmente de encontro a isso. Isso me lembra uma cantiga de roda… “O anel que tu me destes era vidro e se quebrou…” Não, agora o anel não é mais de vidro, nem há anel, pois ele simboliza compromisso. E esse amor pós-moderno e líquido é avesso à estabilidade e compromissos.

A verdade que Bauman discorre é que o amor virou mais um objeto de consumo. Exatamente isso. E, como ele mesmo observa, o consumo está cada vez mais rápido, fácil e descartável. O acesso a ele é simples: o desejo de hoje é facilmente saciável, mas dura pouco tempo. E tem essa vida útil curta propositalmente. Enquanto isso, novos desejos surgem, mais necessidades são criadas, e precisamos desesperadamente consumir, consumir, consumir. Como gafanhotos numa plantação, só que a plantação nunca acaba porque sempre há novos horizontes à vista. Os publicitários são bons nisso. Se consumimos tudoe tão rapidamente por que, afinal, não consumiríamos uns aos outros? Não estaríamos seguindo a lógica da vida líquida.

Mas esse post é só a ponta do iceberg. Minha mente ainda está digerindo toda essa realidade triste e apavorante. Quero amigos que leiam algum texto do Bauman e estejam dispostos a realizar um sarau sociológico &literário para discutir essas idéias. Trocar figurinhas, impressões e experiências. Porque esse livro serviu para me revoltar. Quero nadar contra a correnteza, seguir o que sinto e acredito. Fez-me perceber que estou inserida nessa verdade, porém quero ter a opção de fazer diferente. Do meu jeito. Da maneira que creio ser o melhor caminho. E se houver alguém que também queira, então vamos acreditar juntos. Afinal, parafraseando Raulzito, sonho que se sonha junto é realidade.

Terminei hoje o livro Teresa Filósofa, de um autor anônimo do século XVIII. Cercada de alguns furtivos olhares curiosos, dado a capa do livro. Sei que não se escolhe um livro pela capa, mas esse acaba criando situações engraçadas e um pouco constrangedoras. Afinal, uma mulher nua em uma posição erótica dá asas à imaginação alheia, principalmente quando se está indo ao trabalho, em pleno Orfanotrófio.

Mas vamos ao livro, enfim. É bastante interessante a maneira como a jovem Teresa vai descobrindo a sexualidade e a religião. A contradição da culpa e do prazer que a acompanha vai ganhando novas nuances quando a personagem principal conhece lady C. e o abade T., e sua visão libertina e livre do sexo - dentro de certas normas para garantir o bom andar da carruagem, lógico. Para homens sensatos, o valoroso e sábio abade recomenda o “uso” de uma menininha para os “trabalhos pesados” – como se fosse um penico para mijar, destaca ele. Para moças e mulheres solteiras, mas interessadas nos prazeres, o abade recomenda a prática da masturbação e o uso de certos “aparelhos” que se assemelham a falos.

Aliás, esse livro tem uma peculiaridade: conforme a visão de quem lê, ele pode ser prazeiroso ou devasso. Cabe ao leitor descobrir em que perfil se encaixará. E segue com as descobertas filosóficas e sexuais de Teresa, jovem bela e sensual, que imaginei com a cara da Monica Bellucci - mas com uns 16 anos. Mas mais mudanças acontecem na vida dessa aprendiz de libertina e ela acaba conhecendo a Sra. Bois-Laurier, através da qual Teresa acaba encontrando-se com o Conde, que instiga-a nos prazeres mentais e físicos. Como de praxe, um trecho interessante:

É o amor próprio - dizíeis um dia - que decide sobre todas as ações da nossa vida. Entendo por amor próprio essa satisfação interior que sentimos em fazer esta ou aquela coisa. Eu vos amo, por exemplo, porque tenho prazer em vos amar. O que faço por vós pode vos convir, vos ser útil, mas não tendes nenhuma obrigação por isso: é o amor-próprio que me determinou a isso, é porque fixei a minha felicidade em contribuir para a vossa, e é por esse mesmo motivo que me fareis perfeitamente feliz somente quando o vosso amor-próprio encontrar a sua satisfação específica nisso. (…) Todas as ações de nossas vidas são dirigidas por esses dois princípios: proporcionar-se mais ou menos prazer, evitar mais ou menos dor.”

Bem, interessante, não? Isso é para mostrar que mesmo com aquela capa erótica há muito mais do que simples libertinagem em Teresa Filósofa. Divertido, inteligente e bastante erótico. Altamente recomendável.

Que o diga Barbara, a doce e jovem babá do livro Quando os Adams Saíram de Férias*, de Mendal W. Johnson. Ela só queria ganhar uns trocos durante as férias da facul e acabou presa, torturada, estuprada… Triste para uma garota de 20 anos e cheia de vida pela frente. Mas o pior nem foi o crime em si, e sim o fato de que seus algozes eram cinco crianças e adolescentes, de 10 a 17 anos, as quais ela deveria tomar conta enquanto seus pais descansavam na Europa.

Não pretendo entrar nos detalhes cruéis nem nas torturas psicológicas a que Cindy, Bobby, John, Paul e Dianne submetem sua babá. A angústia cresce a medida que as páginas passam. No início, pura brincadeira de crianças entediadas do interior. Depois, tudo vai tomando uma proporção bastante assustadora, mas ainda assim segui a leitura sem me chocar tanto. Afinal sou jornalista, leio desgraças e maldades do ser humano todos os dias.

Mas, como cantava Renato Russo, a maldade humana agora não tem nome, e confesso que nas páginas finais as lágrimas brotaram nos olhos. Ao contrário do André, que me indicou a leitura e teve que segurar os olhos marejados, eu estava em casa, sozinha e quente, tapada com três edredons. Bem diferente de Barbara, nua, com fome, estuprada, e a caminho de seus últimos momentos. Chorei sim, por que ela era uma pessoa boa, que não via a maldade nos olhos de ninguém, a professorinha correta e sorridente, a Poliana que vive jogando o jogo do contente. Chorei por que sei que é só haver algo belo, verdadeiro, bom na essência que algum fator externo fará de tudo para destrui-lo. Ela somente amava e foi odiada justamente por isso.

O pior foi ver que, apesar das súplicas, não houve nenhum momento de verdadeira piedade. Não suficiente para mudar os fatos. Quando a “brincadeira” perdia a graça, eles avançavam. Avançando até o fim. “Fizemos por que podíamos”, justificou Dianne. E continuaram por que não podiam voltar atrás. Não impunemente.

Dizem que essa história é real, e que o tal autor seria o personagem Bobby. Mesmo que isso seja uma lenda urbana, a verossimilhança é tamanha que não duvido que haja em algum lugar uma história como essa. Não importa se Barbara existiu realmente. Apavora-me o fato de achar totalmente plausível e possível uma história dessas. A maldade humana já não tem nome mesmo. E é real.

*não coloquei o link para o livro por que ele está fora de catálogo. Comprei o meu na Traça, por módicos 18 reais.

morta água

lendo Camilo Mortágua, de Josué Guimarães, (e outras cositas más) e todas as escolhas que o personagem faz e os absurdos que acontecem, fico me perguntando se o certo na vida é seguir o coração, sempre. Por exemplo: Camilo deixa uma noiva apaixonada, Mocinha, por se apaixonar por Leonor. Ele acaba casando com a segunda, e sofrendo muito por isso. Falência, traição, roubos descarados de sócios. A vida de Camilo realmente não foi das melhores. Lógico que houveram momentos bastante intensos entre os dois, mas mesmo assim ele não se escapou do sofrimento. E ele seguiu o que o coração sentiu. Aliás, ele faz muito isso no livro. Acaba-se então de cara com o passado e observando como aquela mulher, Mocinha, ainda o amava. Não casou-se, buscou por ele quando soube da situação difícil em que se encontrava. Vendo sua história contada nas telas de um cinema acabado na Azenha, ele percebe o quando aquela mulher se importava - mas ele preferiu a outra. Certo ou errado? Afinal, Camilo manteve-se honesto com seus sentimentos. Será que valeu a pena? Não sei. Quem garantiria que ele seria mais feliz com Mocinha do que com Leonor? Enfim, quem saberá a resposta?

Tenho pensado muito sobre a vida, o sentido que quero dar a ela. Não vim ao mundo a passeio, disso tenho certeza, só que também não encontrei as respostas. Sigo meu coração e minha consciência, e acho que faço certo assim. Mas não há garantias que minhas escolhas, mesmo sendo feitas baseadas no que acredito/sinto sejam as melhores. Nem sei se realmente faço-as. Talvez já sejamos programados para passar por tudo o que passamos - mas não tenhamos idéia disso. Até que ponto eu faço as minhas escolhas e até que ponto elas fazem a mim?

incógnitas. trabalhar com variáveis e possibilidades. não sei se a maneira como tento/espero governar a minha vida é a melhor, mas com certeza é a única que consigo aplicar. estranho isso, parece que estou enredada numa teia sem fim, com a ilusão de que estou livre.

bem, acho que estou lendo livros demais e ao mesmo tempo.

sumidinha…

sei que ando sumida e um pouco relapsa com esse blog, logo esse blog que criei com tanto amor e carinho. Mas o tempo não tem ajudado mesmo. Porém, não estou parada nas leituras, só as horas disponíveis para elas ficaram deveras reduzidas…

agora estou lendo Vida Líquida, de Zymunt Bauman, e esse livro realmente está me fazendo pensar, está mexendo muito comigo. Tanto que estou lendo-o devagar, com a pausa necessária para a reflexão e os questionamentos. Mas sério, ele me fascina e me deprime. E me indigna um pouco também por fazer parte de tudo. Aliás, eu, você e quaisquer pessoas. Não consigo imaginar uma fuga… Mas depois eu o comentarei com mais afinco e precisão. Prometo! :)

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